Capítulo Extra

O Dia da Formatura

– DECO! DECO!
– Senhor, eu percebo as batidas de seu coração 27% acima dos níveis normais. Sua respiração está 44% mais ofegante e está 13 minutos atrasado para…
– DECO! Sem estatísticas por favor! Eu sei que estou atrasado para minha formatura e ainda preciso passar na casa da…
– Beep! Beep! Beep! – DECO começava a apitar ensandecidamente.
– Ahhhffff… Atenda a chamada DECO.
– Está bem senhor…

DECO, meu tele-bracelete inteligente que conversava comigo nas horas vagas, monitorava minhas funções vitais 24 horas ao dia e que também fazia vídeo-chamadas aos meus amigos e familiares, notava a minha total inquietação. Aquele era um dia especial pois nos formávamos no oitavo ano fundamental da Escola de Jovens Cientistas de St. Gallen. Para que entendam melhor deixe-me explicar brevemente a estrutura hierárquica dentro da instituição de ensino. Leekompur é um reino amplamente contido e espelhado na ciência pois dela dependemos a nossa sobrevivência. Os uniformes e a hierarquia de nossa escola imitavam as camadas eletrônicas de um átomo. Assim, mais ou menos dos quatro aos cinco anos de idade aprendíamos o básico do básico enquanto estávamos na camada K. Nos oito anos seguintes, aprendíamos a ciência fundamental na chamada camada L. Passados os oito anos dos estudos fundamentais, ingressávamos em um novo período, mais adulto, onde nos aprofundávamos em estudos avançados por mais dezoito anos na derradeira camada M. Todos os jovens então eram representados por um átomo da tabela periódica. Por quê mesmo eu estou eufórico? Pois hoje é o dia em que deixo a fase fundamental de lado e inicio a última e longa fase de minha vida. Meus pais, renomados cientistas de Leekompur, aguardaram ansiosamente por esta data, já que sou filho único. Imaginem as expectativas deles! Não posso decepcioná-los não é mesmo?
DECO iniciou a transmissão com um pouco de estática

– Shshshshsh… Noah?…Shshshsh… Noah você está aí?
– Kristen! Eu já estou saindo não se preocupe. Me dê mais vinte minutos e me encontre na estação Hochwacht!
– Não foi pra isso que te liguei cabeção!
– Não?
– Escute com atenção. Você tem falado com Eric e Dylan de ontem pra hoje?
– Falei ontem antes de dormir depois que te liguei pra combinarmos de nos encontrarmos todos e … não espere. Eu deixei um recado nos tele-braceletes dos dois. Não me atenderam e nem me ligaram de volta. Estranho.
– Pois é! Tive a mesma sensação.
– E agora, o que você quer que eu faça Kris?
– Que se apresse! Vamos ligando pra eles do caminho e me encontre o quanto antes na estação Hochwacht do Trem-Circular.
– Está bem, chego em um minuto. Bye!

Desliguei a transmissão, vesti meu avental inteligente enquanto ao me olhar no espelho de meu quarto, solicitava a DECO mais um favor:

– DECO, escolha uma textura adequada para a minha formatura.
– Está bem senhor, separei algumas opções baseadas…
– Rápido DECO!
– Que tal esta senhor?

Ao pronunciar estas palavras robotizadas, meu avental que era feito de uma tela maleável e inteligente, começou a exibir milhares de cores, formas e desenhos até que sua imagem se estabilizou mostrando ao final detalhes dourado num fundo branco além de um átomo de Neônio (Ne) verde luminoso à frente de meu lado esquerdo do peito. Ele era representado por uma animação da eletrosfera contendo todos os seus dez elétrons ao redor de um núcleo pulsante. Esta roupa era usada somente nas passagens de ano mais simbólicas como esta de hoje, pois no ato de receber o diploma, o átomo representado no avental deveria ganhar mais um elétron se tornando assim um átomo de Sódio (Na).
Meus pais não iriam me acompanhar até a escola pois devido à sua importância, eles fariam parte dos convidados de honra e já deveriam estar lá numa hora dessas. Engraçado que eu sempre acordava até mesmo antes deles por causa dos sinos das Torres Gallen que pronunciavam um novo dia a cada manhã. Adorava apreciá-los sempre que acordava. Hoje, eu acabei cochilando novamente e até Linus, meu Golden Retriever que costumava me acordar, tinha dormido além da conta no tapete ao lado de minha cama.
Saí correndo porta afora quando DECO resolveu apitar loucamente outra vez.

– O que foi agora DECO?
– Suas radiobeans senhor! Nunca esqueça de tomá-las!
– Droga!

Voltei correndo, enchi um copo com água e mandei ver pra dentro duas pílulas de um remédio antirradiação que eu tomava depois de um incidente ocorrido comigo e com meus amigos no museu Vön Der Flue dois anos atrás.

– E agora tudo certo? Já posso ir? – perguntei num tom irônico.
– Passagem livre meu senhor, boa sorte!

Ao escutar meus passos, Linus também saiu em disparada ao meu encontro como fazia todas as manhãs. Peguei o trem Circular na estação próxima à minha rua J J Rousseau, e parei duas estações à frente para me encontrar com Kristen. Antes mesmo que descesse do trem, Kristem entrou em meu vagão dizendo:

– Nem saia Noah! Vamos logo que já estou nervosa sem notícias daqueles dois! Conseguiu falar com eles? – perguntava ela impaciente.
– Nada…

Kristen olhava com seus olhos verdes e imponentes para fora da janela procurando uma resposta com seu cérebro trabalhando a mil por hora, roendo suas unhas de preocupação. Depois de uma pausa me disse.

– Nós os encontraremos lá.
– Assim espero. – respondi apreensivo.

A ansiedade e a preocupação só aumentoaram quando passamos pela estação de Dylan, Águas Violetas, e nada dele. Evitamos cruzar olhares para não piorar a situação.
Ao chegarmos na Estação St. Gallen, Kristem me puxou pelo braço e fomos correndo até a entrada da escola. Encontramos as trigêmeas Anne, Atalie e Aurelie e logo perguntamos do paradeiro deles, sem sucesso.

– ATENÇÃO ALUNOS FORMANDOS DE ST. GALLEN. DIRIJAM-SE TODOS AO CENTRO DO SALÃO NOBEL. – soava a voz do diretor Albin por todos os cantos da escola.
– Venha Kris, eles devem estar lá no meio – agora fui eu quem a puxei pra dentro do Salão Nobel.
– Espero que esses engraçadinhos tenham uma boa explicação. Piadinha mais sem graça… – dizia Kristen visivelmente brava.

O salão era enorme e muito, muito alto. Não tinha teto pois muitos dos lugares de Leekompur eram descobertos e não precisavam ser fechados por cima já que a cidade toda era coberta por uma gigantesca redoma de vidro chumbado. Assim, nunca chovia ou ventava forte em Leekompur.
Pra variar não encontramos nossos amigos no meio dos formandos.

– Será que devemos procurar meus pais e avisar que eles não vieram? – perguntei.
– Acho que é uma boa ideia. – disse Kristen esperançosa.

Porém naquele mesmo instante tocaram-se as trombetas. Ao lado do diretor Albin, o rei Adon apareceu no palco alto ao centro do salão enquanto fazíamos as devidas reverências.

– E agora? – cochichei baixinho para Kristen.
– Agora esperamos. – disse voltando a assumir seu tom de brava.

O rei então começou a falar:

– Inestimáveis súditos, um bom dia à todos!
– Bom dia vossa majestade!
– Hoje, mais uma vez, estamos diante de um dia mais que especial para estes jovens cientistas de Leekompur. Uma data que os marcará eternamente, não como o fim mas como o começo de uma vida mais adulta, responsável e brilhante perante a ciência. Que vocês possam elevar nosso patamar a outros níveis e que nos traga o progresso tão esperado para um dia vencermos estas barreiras de vidro e desbravarmos o mundo mais uma vez como nossos ancestrais da Velha Era. Um viva!!!

Ao dizer isto o rei Adon levantou os braços enquanto fogos de artifícios digitais explodiam em telas invisíveis espalhadas pelos ares do recinto. Naquele mesmo instante, lá do alto de duas colunas adjacentes, dois jovens saltavam usando um par de asas magnéticas e carregando um aparato cada um que expelia um rastro de luzes pelos ares que formavam figuras de átomos, béqueres e tubos de ensaio, fórmulas. livros, foguetes e planetas. Um verdadeiro show de luzes enquanto os dois acrobatas passeavam pelos céus cruzando seus rastros em vários momentos até que aterrissaram no palco ao lado do rei sob aplausos e ovações demorados de todos ali presentes. Eles usavam uma roupa metálica de proteção e capacetes espaciais. Ao retirarem, para minha surpresa e de Kristen quem eram eles? Os nossos amigos Dylan e Eric!

– Por Klaus!!! – Dissemos eu e Kristen ao mesmo tempo.
– Animal! – exaltava Eric nos olhando com seus dois olhos arregalados e um sorriso no rosto de ponta a ponta. Dylan, mais reservado, apenas sorriu nos mirando com seu olhar enquanto apontava o dedo em nossa indicação.
– Filhos duma mãe! – dizia Kristen apertando sua mão na minha. – Deixem eles comigo!

Passado o susto, o evento seguiu normalmente. Dylan e Eric tomaram seus lugares ao nosso lado e receberam cada um uma forte beliscada de Kristen enquanto eu, feliz por eles, os cumprimentava com nosso toque ensaiado de mãos.

– Valeu Noah! E valeu você também Kristen!!! – diziam os dois felizes da vida e provocando nossa amiga mais um pouquinho.

Recebemos então um a um nossos diplomas diretamente das mãos de nosso rei que parecia uma criança como um de nós de tão feliz que estava.
Após a cerimônia oficial, iniciou-se uma tarde festiva com comes e bebes e inclusive inventos gastronômicos de meu pai que trabalhava no ministério da Agronomia Leekompuriana e vivia inventando novas formas de comida.
Deixamos todos na festa, saímos de fininho e rumamos ao mirante à beira do lago Bodensee. Aquele era o nosso dia e queríamos um pouco de espaço. Não fomos os únicos a ter esta ideia. Chegando lá, vários alunos também tinham subido ao mirante para conversar e pensar na vida como sempre fazíamos. Aquele era um momento único. Achamos nosso canto e sentamos lado a lado eu, Kristen, Dylan e Eric olhando o horizonte do extenso lago Bodensee já fora da cúpula de contenção de nosso reino. Tentávamos imaginar o que viria pela frente. Não tínhamos a menor ideia de que tudo ainda nem tinha começado…

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